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  • Foto do escritorMagda Cruz

Crónica. "A Natureza das palavras e dos castelos de areia"


Alguma vez fingiram que precisavam de ajuda só para terem uma desculpa para falar com uma pessoa? Eu, de vez em quando, ligo à minha avó e pergunto…bom, qualquer coisa. Faço perguntas como "O bacalhau está a criar muita água, deito fora ou vai evaporar?" ou "Ó vó, nesta sua receita de bolo de noz mete-se mesmo duas xícaras de açúcar?". Realmente o bolo ficava demasiado doce se seguisse as medidas daquela receita escrita em papel amarelecido.


Já todos fomos vítimas desse fingimento. Há uns dias fui à praia e, sentada na toalha, não muito longe da água, observei as pessoas por algum tempo. Vi o que faziam sem olhar. Não as estava a analisar. Estava apenas a observar. É nesse tempo que me apercebo de anos de manipulação - e não resisto a sorrir.


Em “Natureza Urbana”, Joana Bértholo dá vida a uma mulher desgraçada, órfã de pai e mãe, sem sorte nenhuma na vida e que, a juntar a tudo isto, não tem jeitinho nenhum com as palavras. “A orfandade não me deixou desamparada. Herdei um exíguo apartamento nos subúrbios. (...) A minha mãe, que Deus a tenha - habituei-me à expressão mesmo não sendo crente -, nunca me deu nada em vida, mas ao morrer deixou-me um refúgio. Digo que Deus a tenha, porque lhe acrescento, entredentes, «e que fique com ela». O meu pai nunca o conheci, nem nada sei dele. Um assunto tabu. Todas as famílias têm os seus , e a morte dela chega como garantia de que nunca lhe farei perguntas que toda a vida desejei fazer.”



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